A empresa de inteligência contra ameaças SOCRadar revelou uma plataforma de phishing como serviço conhecida como AnonyMousKIT, que usa mensagens e páginas falsas, além de agentes de voz alimentados por inteligência artificial, para enganar proprietários de iPhones roubados e obter códigos de acesso e dados da conta Apple. De acordo com o relatório publicado em 25 de agosto de 2026, a plataforma está ativa desde o início de 2024 e apoia um ecossistema para a venda de dispositivos roubados e a coleta de dados do Apple ID, além do acesso a backups do iCloud e a dados do Keychain.
A SOCRadar conseguiu analisar a infraestrutura do serviço depois que seus pesquisadores exploraram o uso de caminhos relativos expostos pelos operadores. A análise mostrou que a AnonyMousKIT está associada a 506 domínios e 168 marcas que funcionam como interfaces de venda ou revendedores do serviço, indicando que a atividade não é uma campanha isolada de phishing, mas um serviço organizado que pode ser usado por vários operadores.
Como a plataforma tem como alvo os proprietários de dispositivos roubados?
O processo começa aproveitando os dados de contato fornecidos pelo proprietário do dispositivo ao ativar o Modo Perdido e, em seguida, entrando em contato com ele por e-mail, mensagens de texto, WhatsApp ou chamadas telefônicas. As mensagens se passam pela Apple e mencionam o modelo do dispositivo e o número IMEI corretos, conferindo certa credibilidade à alegação de que o telefone foi encontrado.
A vítima é então direcionada a uma página falsa que imita o Find My ou uma das páginas da Apple, onde é solicitado que insira o código de acesso do dispositivo, os dados da Apple Account e o código de autenticação de dois fatores. Em alguns casos analisados pela SOCRadar, um agente de voz se apresentou como “Alice from Apple Support” e informou à vítima que alguém havia tentado desbloquear o telefone e o levado a uma Apple Store. Em seguida, pediu que ela confirmasse a propriedade ditando o código de acesso e depois a direcionou para a página de phishing.
Números revelam a dimensão da infraestrutura
Os pesquisadores recuperaram registros de 200 chamadas feitas com vítimas entre agosto de 2025 e maio de 2026. As chamadas usaram 55 roteiros interativos diferentes, executados por um agente de voz por meio de cinco personagens. A SOCRadar afirma que o custo de cada chamada para o operador é de aproximadamente US$ 0,10 e que 90% das chamadas analisadas tinham como alvo números no Brasil.
Embora as campanhas tenham alcance global, os pesquisadores identificaram uma concentração adicional na África do Sul, na Indonésia, na Itália, na Índia, no Quênia e no Brasil. Uma pequena proporção das mensagens da plataforma também chegou a órgãos governamentais, instituições e empresas, ampliando o possível impacto da campanha para além do mercado de dispositivos roubados.
Por que esta notícia é importante?
A importância da plataforma está no fato de ela conectar o roubo do dispositivo ao roubo da identidade digital de seu proprietário. O fornecimento do código de acesso e dos dados da conta pode permitir que os invasores acessem informações pessoais, backups do iCloud, senhas armazenadas no Keychain, e-mails profissionais e outras informações corporativas presentes em dispositivos pessoais ou fornecidos pelos empregadores.
Depois de obter os códigos, os invasores podem, segundo a SOCRadar, acessar os dados da vítima, redefinir o dispositivo e removê-lo do aplicativo Find My, vendendo-o posteriormente em vez de limitar-se a comercializá-lo para obter peças. A principal limitação demonstrada pelo relatório é que o sucesso da operação depende de convencer o proprietário do dispositivo a revelar códigos sensíveis. Portanto, a existência de uma chamada automatizada não constitui evidência de invasão dos sistemas da Apple, mas mostra como informações corretas sobre o dispositivo, engenharia social e voz artificial são usadas para contornar a cautela da vítima.