Tecnologias médicas

Uma startup acredita que o problema da IA na descoberta de medicamentos é a falta de dados de tecidos humanos

A Vivodyne afirma que os modelos de inteligência artificial usados na descoberta de medicamentos carecem de dados causais obtidos de tecidos humanos vivos e aposta em laboratórios robóticos para produzi-los. A empresa apresenta sua visão como uma solução para um problema que supera as capacidades dos modelos atuais, não como evidência de que uma cura para o câncer esteja próxima.

2026-08-19
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certi.news Editorial Team
Uma startup acredita que o problema da IA na descoberta de medicamentos é a falta de dados de tecidos humanos

As promessas da inteligência artificial de curar o câncer e todas as doenças ainda estão longe de resultados práticos decisivos, mas a startup de biotecnologia Vivodyne considera que o principal obstáculo não é a falta de capacidade computacional, e sim a falta de dados adequados sobre como os tecidos humanos funcionam. Por isso, a empresa desenvolveu laboratórios robóticos modulares que chama de HIVE, com o objetivo de produzir dados biológicos causais que possam ser usados para treinar modelos com uma compreensão maior das complexidades do corpo humano.

Os laboratórios HIVE podem, segundo a empresa, cultivar 20 tipos de tecidos humanos e depois expô-los automaticamente a diferentes doses, monitorando sua resposta. A ideia é passar da observação do estado de uma célula ou proteína em um momento específico para o acompanhamento do que acontece quando um determinado estímulo provoca uma mudança biológica posterior.

A lacuna entre os modelos de inteligência artificial e a biologia humana

Uma grande parte dos dados usados atualmente na pesquisa de descoberta de medicamentos baseia-se em experimentos com animais ou em estudos de células isoladas e proteínas. A Vivodyne considera que essas fontes nem sempre oferecem uma imagem suficiente do comportamento dos tecidos humanos vivos, especialmente quando a resposta resulta da interação entre várias vias biológicas.

Andrei Georgescu, diretor executivo e cofundador da empresa, explicou o problema dizendo que os modelos atuais aprendem a distinguir entre um “estado celular” e outro, mas não necessariamente aprendem que o segundo estado foi resultado de uma inflamação ou de um estímulo que causou a transição a partir do primeiro estado. Na sua visão, a ausência de testes humanos deixa os modelos sujeitos a produzir resultados que podem funcionar em camundongos, mas não ser transferidos para seres humanos.

Essa observação ocorre em um momento em que algumas declarações sobre a capacidade da inteligência artificial de curar o câncer começaram a parecer mais ambiciosas do que as evidências disponíveis. Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, observou que falar em curar o câncer com inteligência artificial se tornou mais próximo de uma frase feita do que de uma previsão confiável, embora já tenha abordado essa possibilidade em seus textos. Sam Altman também citou repetidamente a cura do câncer como justificativa para impulsionar a OpenAI rumo à inteligência artificial geral e aumentar os investimentos em computação, enquanto Demis Hassabis, do Google DeepMind, afirmou no ano passado que a inteligência artificial poderia ajudar a curar todas as doenças dentro de uma década.

O que os resultados atuais mostram?

Os resultados efetivos ainda são limitados. Um punhado de medicamentos projetados com a ajuda da inteligência artificial chegou a testes em seres humanos, e um deles chegou à fase 3, mas isso não eliminou os obstáculos fundamentais à aprovação de novos medicamentos. Além disso, o AlphaFold, que recebeu um Prêmio Nobel e contribuiu para a compreensão da estrutura básica da vida, ainda não produziu um novo medicamento efetivo, segundo a matéria. A Isomorphic Labs, empresa fundada para desenvolver a partir do AlphaFold, espera iniciar seus primeiros testes até o final de 2026, depois de eles terem sido originalmente previstos para 2025.

A matéria indica que cerca de 90% dos medicamentos que obtêm sucesso suficiente nos testes em animais para chegar aos ensaios clínicos posteriormente não recebem aprovação regulatória para uso em seres humanos. A Vivodyne afirma que seus tecidos alcançaram uma precisão preditiva de 94% em testes de toxicidade de células hepáticas em comparação com ensaios humanos, e que os tecidos das vias respiratórias corresponderam ao comportamento de tecidos humanos reais em 96% dos casos, enquanto a medula óssea alcançou correspondência total em testes que incluíram 20 medicamentos quimioterápicos diferentes. Esses são números divulgados pela empresa e não substituem uma comprovação independente em larga escala.

O que a Vivodyne está construindo na prática?

A Vivodyne se separou da Universidade da Pensilvânia em 2021, depois que Georgescu obteve um doutorado em bioengenharia. Na semana anterior à publicação da matéria, a empresa inaugurou o que chama de maior “centro de dados humanos” do mundo, pouco distante de São Francisco. A empresa afirma que realiza ali um número de experimentos equivalente ao dobro do total de experimentos com animais conduzidos nos Estados Unidos, sem revelar os nomes de seus parceiros, embora confirme colaborar com várias grandes empresas farmacêuticas.

O objetivo comercial imediato é ajudar os desenvolvedores de medicamentos a estimar as chances de sucesso de um candidato antes de gastar dezenas de milhões de dólares em um ensaio clínico. Georgescu compara isso aos testes de colisão da indústria automobilística: normalmente, o fabricante sabe antes do teste se o carro atenderá aos requisitos da NHTSA, enquanto os desenvolvedores de medicamentos entram nos ensaios clínicos com um grau menor de certeza, com alta probabilidade de o medicamento não obter aprovação da FDA.

A Vivodyne levantou pouco menos de 80 milhões de dólares em duas rodadas de financiamento lideradas pela Khosla Ventures. A empresa não revela os nomes dos clientes ou parceiros, portanto não é possível avaliar, apenas com base na matéria, a dimensão do uso comercial efetivo de sua plataforma.

Por que essa proposta é importante?

A importância do projeto da Vivodyne está em tentar abordar uma etapa frequentemente negligenciada no debate sobre inteligência artificial: a qualidade dos dados com os quais o modelo aprende, e não apenas o tamanho do modelo. A empresa afirma que os laboratórios HIVE acompanham centenas de milhares de experimentos em andamento nos quais tecidos doentes são expostos a diferentes estímulos, o que poderia fornecer dados de treinamento sobre relações causais e talvez apoiar modelos capazes de sugerir a causa que leva a um efeito específico.

Esse tipo de dado pode se tornar mais importante no desenvolvimento de terapias combinadas que tenham como alvo várias vias, pois Georgescu considera que o número de combinações possíveis está crescendo rapidamente e não pode ser explorado por meio de uma abordagem experimental aleatória. Mas a matéria não apresenta evidências de que a Vivodyne esteja próxima de curar o câncer; ela expõe uma aposta tecnológica de que melhorar os dados humanos pode ser uma condição necessária para alcançar um avanço mais realista na descoberta de medicamentos.

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TechCrunch AI
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certi.news Editorial Team

O que você precisa saber

A Vivodyne considera que o principal obstáculo à inteligência artificial na descoberta de medicamentos é a falta de dados causais provenientes de tecidos humanos vivos, e não a falta de capacidade computacional. A empresa utiliza laboratórios robóticos HIVE para produzir esses dados, mas os resultados divulgados ainda não foram comprovados de forma independente em larga escala e não significam que uma cura para o câncer esteja próxima.

  • Os laboratórios HIVE podem, segundo a Vivodyne, cultivar 20 tipos de tecidos humanos, expô-los automaticamente a diferentes doses e monitorar suas respostas.
  • A empresa afirma que os dados de tecidos vivos podem ajudar os modelos a aprender relações causais, em vez de apenas distinguir entre estados celulares.
  • A Vivodyne anuncia uma precisão preditiva de 94% em testes de toxicidade de células hepáticas e de 96% em tecidos das vias respiratórias, além de uma correspondência completa com a medula óssea em um teste que envolveu 20 medicamentos quimioterápicos.
  • Os medicamentos projetados com auxílio de inteligência artificial ainda têm acesso limitado a testes em humanos, e, segundo o artigo, o AlphaFold ainda não produziu efetivamente nenhum medicamento novo.
  • A empresa afirma ter captado pouco menos de 80 milhões de dólares, mas não revela os nomes de seus clientes ou parceiros, o que limita a avaliação da disseminação comercial de sua plataforma.
  • O artigo não apresenta evidências de que a Vivodyne esteja próxima de curar o câncer; ele descreve uma aposta tecnológica na melhoria da qualidade dos dados humanos usados na descoberta de medicamentos.

Perguntas frequentes

Qual problema a Vivodyne está tentando resolver?

A empresa tenta enfrentar a falta de dados causais sobre como tecidos humanos vivos respondem a estímulos, uma carência que pode limitar a capacidade dos modelos de inteligência artificial de prever a eficácia dos medicamentos em seres humanos.

O que são os laboratórios HIVE?

São laboratórios robóticos modulares desenvolvidos pela Vivodyne para cultivar vários tipos de tecidos humanos, expô-los automaticamente a diferentes doses e monitorar as mudanças resultantes.

A Vivodyne está próxima de curar o câncer?

Não. O artigo ressalta que o projeto não constitui evidência de que uma cura para o câncer esteja próxima, mas sim uma tentativa de construir uma base de dados humanos que possa apoiar a descoberta de medicamentos mais realistas.

Os resultados da Vivodyne foram comprovados de forma independente?

O artigo não apresenta evidências de uma validação independente em larga escala; os números mencionados são resultados divulgados pela própria empresa.

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