O teste da ARES North America no local Gamebird Pit, no estado de Nevada, mostrou que o sistema GravityLine consegue movimentar duas massas com peso total de aproximadamente 340 toneladas em uma encosta com uma inclinação equivalente a cerca de 55%, utilizando um motor estacionário e um sistema de correntes. No entanto, a altura efetivamente percorrida pelas massas, de aproximadamente 36 metros, produz apenas cerca de 33 quilowatt-horas de energia gravitacional total armazenada.
Esses números são o foco da avaliação de Michael Barnard na CleanTechnica, que adota uma posição crítica em relação à viabilidade do armazenamento de energia por meio de massas sólidas que se deslocam para cima e para baixo em trilhos. A equação básica é simples: a energia gravitacional é igual à massa multiplicada pela gravidade e pela altura. O sistema pode liberar uma potência de até vários megawatts por um curto período durante a descida das massas, mas a potência instantânea não significa possuir uma grande reserva de energia.
O que o teste da ARES realmente comprovou?
Segundo o artigo, o teste de Gamebird modificou um detalhe importante de engenharia em comparação com uma avaliação anterior publicada em 2024. A avaliação anterior previa que as forças dos cabos convencionais utilizados em sistemas inclinados limitariam o tamanho das massas que poderiam ser movimentadas, enquanto o projeto da ARES supera essa limitação usando um sistema de acionamento por correntes.
Entretanto, o autor considera que o principal problema comercial não mudou: a baixa densidade energética das massas sólidas significa que armazenar quantidades úteis de eletricidade exige um estoque material enorme. Para evitar avaliar a ideia com base na altura limitada de Gamebird, Barnard assumiu um cenário com uma altura efetiva de 400 metros, com uma usina que produz 20 megawatts durante 20 horas, ou seja, com capacidade de armazenamento de 400 megawatts-hora.
Nesse cenário, o sistema deixa de ser apenas um meio barato de transportar cascalho por uma encosta. Ele precisa de centenas de milhares de toneladas de massas, distribuídas em transportadores projetados especificamente para esse fim, com áreas de armazenamento nos níveis superior e inferior, trilhos operacionais, motores estacionários, sistemas de transporte e controle, corredores de manutenção e um certo grau de redundância operacional que garanta o acesso à energia armazenada quando parte dos equipamentos falhar.
Uma comparação diferente com o armazenamento hidrelétrico e as baterias
O artigo compara esse projeto ao armazenamento hidrelétrico por bombeamento, que utiliza o mesmo princípio gravitacional, mas sem a necessidade de fabricar uma estrutura independente para cada parte da massa. A água permanece em reservatórios, movimenta-se por um canal ou uma tubulação compartilhada e não precisa de uma estrutura metálica, rodas ou espaço de estacionamento para cada unidade de massa.
Já as baterias de íons de lítio exigem uma fabricação intensiva em materiais, mas se beneficiam de fábricas permanentes e de uma cadeia global de fornecimento que permite ao desenvolvedor de um projeto de armazenamento comprar unidades modulares, em vez de criar um sistema de fabricação de equipamentos pesados perto de cada local geograficamente adequado.
Na visão do autor, o armazenamento gravitacional por trilhos reúne as desvantagens dos dois modelos sem obter todas as suas vantagens: depende de um local geograficamente adequado, como o armazenamento hidrelétrico, mas acrescenta a isso um grande estoque de equipamentos móveis, como nos sistemas industriais fabricados. O artigo observa que cada transportador precisa ser fabricado, inspecionado, programado e mantido, e que sua falha pode tornar parte da energia armazenada indisponível, mesmo que a massa permaneça em uma posição elevada.
O que muda na prática?
Os cálculos apresentados mostram que aumentar apenas a altura não resolve o problema. Se o sistema subir a 100 metros em vez de 50 metros, teoricamente será possível dobrar a energia por massa, mas obter a mesma energia em uma altura menor exigirá aumentar a massa proporcionalmente à diferença. Barnard considera que isso significa fabricar milhares de vagões de aço adicionais preenchidos com concreto e reuni-los nos níveis superior e inferior.
O artigo também destaca que a pedreira oferece condições relativamente favoráveis, como a existência de agregados, estradas e terrenos industriais degradados, mas não necessariamente oferece uma grande altura. Por outro lado, um local elevado pode não dispor de agregados baratos, infraestrutura industrial pesada, linhas de transmissão, áreas adequadas para armazenamento ou condições geotécnicas simples. Portanto, não basta encontrar uma colina muito inclinada; é necessário que um conjunto de condições esteja disponível simultaneamente.
O artigo também menciona que as aquisições de armazenamento de longa duração no Reino Unido em 2026 incluíram projetos de baterias de íons de lítio com duração superior a dez horas, o que enfraquece a suposição de que o armazenamento por 20 horas automaticamente deixa um amplo espaço para alternativas mecânicas.
Leitura editorial
O principal valor do material não está em provar que o sistema da ARES é incapaz de se mover; o teste prova o contrário. A questão mais importante é se a energia resultante desse movimento justifica a infraestrutura material e operacional necessária para fornecer um serviço de rede de grande escala. O artigo oferece uma resposta negativa contundente, que é a opinião do autor e não uma conclusão independente documentada aqui.
Algumas questões permanecem em aberto, especialmente o custo real por megawatt-hora, a vida útil dos equipamentos, o plano de manutenção e as emissões incorporadas. Barnard afirma que não realizou um cálculo detalhado das emissões desse projeto, mas prevê que o uso de aço, cimento e máquinas pesadas resulte em uma grande pegada de carbono. Portanto, o material deve ser lido como uma avaliação analítica crítica baseada na física e nos requisitos de projeto, e não como um estudo econômico ou de ciclo de vida completo.