Os investidores não abandonaram o setor de tecnologias imobiliárias, mas se tornaram mais seletivos na escolha das empresas que merecem financiamento. Segundo dados da Crunchbase, em 2026 os recursos estão se direcionando mais para empresas que usam inteligência artificial e outras tecnologias para tornar a construção, a operação de imóveis e as transações imobiliárias mais rápidas e menos dispendiosas, enquanto os softwares imobiliários generalistas e as empresas em estágio avançado de crescimento enfrentam maior pressão para captar capital.
Isso ocorre em um momento em que o setor ainda está distante dos níveis de financiamento anteriores à pandemia. As startups globais relacionadas ao setor imobiliário levantaram cerca de US$ 8,7 bilhões em financiamentos, das fases iniciais às fases de crescimento, ao longo de 2026 até a data de publicação da análise, em 1º de setembro. Esse número se compara aos cerca de US$ 24 bilhões de 2019 e aos US$ 12,3 bilhões de 2025. Com quatro meses restantes até o fim do ano, o valor do financiamento parece estar a caminho de igualar o nível de 2025 ou superá-lo ligeiramente.
Menos dinheiro e menos negócios
A queda não se limita ao valor do financiamento. O setor registrou apenas 794 negócios ao longo de 2026, contra mais de 2.400 negócios em 2019 e 1.446 no ano anterior. A redução no número de negócios indica, por um lado, uma diminuição do apetite dos investidores e, por outro, a possibilidade de uma transição do mercado para rodadas maiores e mais concentradas.
O ambiente das taxas de juros explica uma parte importante dessa transformação. Taxas que variaram entre 6% e 7% tornaram o investimento em imóveis mais difícil, em comparação com o período da pandemia, que permitiu a compradores e proprietários de imóveis obter taxas de hipoteca de 2,5% para empréstimos de 15 anos. Essas condições excepcionais sustentaram o interesse dos investidores, especialmente nos Estados Unidos, mas já não representam a base do mercado atual.
As grandes apostas fora dos Estados Unidos
O aspecto mais marcante dos dados de 2026 é que quatro dos cinco maiores negócios de financiamento ocorreram fora dos Estados Unidos. Os três maiores negócios foram realizados na Europa, incluindo dois para empresas que atuam no setor do ferro verde.
Em junho, a Stegra, com sede em Estocolmo, levantou cerca de US$ 1,6 bilhão em uma rodada de ações privadas liderada pela Wallenberg Investments, que se tornou a maior acionista da empresa sueca, de seis anos de existência. Em agosto, a Hydnum Steel, com sede em Madri, levantou US$ 695 milhões em uma rodada liderada pela Cofides, para desenvolver sua fábrica de ferro verde, com uma avaliação de US$ 3,1 bilhões.
O terceiro maior negócio europeu ficou com a Mews, plataforma de gestão de hospitalidade em nuvem com sede em Amsterdã, que encerrou uma rodada Series D de US$ 300 milhões em janeiro, com uma avaliação de US$ 2,5 bilhões, liderada pela EQT Growth, de Londres. A lista também incluiu a Bedrock Robotics, de São Francisco, que levantou US$ 270 milhões em uma rodada Series B em fevereiro, elevando seu financiamento total para mais de US$ 350 milhões e seu valor para US$ 1,75 bilhão. A Nesto, plataforma digital de hipotecas com suporte de inteligência artificial em Montreal, também levantou US$ 216 milhões em uma rodada Series E em junho, com uma avaliação de US$ 1,47 bilhão.
Aquisições mais fortes que os IPOs
A mesma imagem aparece nas operações de saída, mas com clara predominância de fusões e aquisições sobre ofertas públicas iniciais. O único IPO de grande porte conhecido no setor em 2026 foi realizado pela EquipmentShare, de Columbia, no estado do Missouri, empresa de aluguel de equipamentos de construção que possui uma plataforma de tecnologias para canteiros de obras. A empresa levantou cerca de US$ 747 milhões em receitas primárias após precificar 30,5 milhões de ações a US$ 24,50 por ação, e o valor total da oferta, incluindo as ações vendidas pelos atuais proprietários, chegou a cerca de US$ 859 milhões.
Em contrapartida, o mercado registrou várias grandes aquisições. A maior foi a compra da MaintainX pela Autodesk por US$ 3,6 bilhões em dinheiro, em maio. A MaintainX administra uma plataforma com suporte de inteligência artificial para manutenção de equipamentos e gestão de ativos, e havia alcançado uma avaliação de US$ 2,5 bilhões em 2025, após uma rodada Series D de US$ 150 milhões.
A Compass também concluiu em janeiro a aquisição da Anywhere em uma operação em ações de US$ 1,6 bilhão, e a Procore anunciou em julho a compra da DroneDeploy, especializada em softwares de captura da realidade aérea e terrestre, por US$ 845 milhões em dinheiro, além de uma aquisição menor da plataforma DataGrid para agentes de inteligência artificial no setor da construção. A CoStar Group concluiu em agosto a compra da Zonda, fornecedora de dados e tecnologias para o mercado imobiliário residencial, por US$ 800 milhões em dinheiro. No mesmo mês, a The Real Brokerage concluiu a compra da RE/MAX Holdings por US$ 880 milhões, formando uma nova entidade controladora chamada Real REMAX Group.
O que está mudando na prática?
A inteligência artificial nesse mercado não parece ser apenas um tema experimental; as empresas que atraem capital ou compradores são, segundo a tendência identificada pelo material, aquelas capazes de vincular a tecnologia a um resultado operacional mensurável: reduzir gastos, acelerar fluxos de trabalho, melhorar decisões ou automatizar tarefas rotineiras. Um estudo da PricewaterhouseCoopers e da MetaProp indica uma expansão do uso de inteligência artificial nos setores imobiliário e da construção, paralelamente à extensão das tecnologias imobiliárias para os setores de energia, infraestrutura e tecnologias climáticas.
Leitura editorial: a mudança efetiva não é um retorno generalizado à prosperidade das tecnologias imobiliárias, mas uma redistribuição da confiança e do capital dentro do setor. Os investidores não financiam “tecnologia imobiliária” como uma categoria única; preferem soluções ligadas a um problema financeiro ou operacional específico, enquanto as grandes empresas usam aquisições para obter os dados, os fluxos de trabalho e os canais de distribuição necessários para construir produtos de inteligência artificial mais rapidamente. Ainda assim, os números não comprovam que o setor tenha voltado a crescer: o volume de financiamento e o número de negócios continuam muito abaixo de 2019, e a fonte também não esclarece até que ponto as avaliações das empresas são sustentáveis ou se essas soluções conseguem gerar retornos efetivos em larga escala.