Empresas de inteligência artificial física em todo o mundo captaram US$ 47,4 bilhões em 521 rodadas durante o primeiro semestre de 2026, segundo dados da Crunchbase, um salto próximo de quatro vezes em comparação com o segundo semestre de 2025, quando empresas do setor captaram US$ 12 bilhões em 470 rodadas. O valor também supera em cerca de 80% o total do primeiro semestre de 2025, de US$ 26,4 bilhões em 436 rodadas.
A Crunchbase usa o termo inteligência artificial física para se referir a tecnologias que conectam software a hardware, sensores e sistemas que operam no mundo real. Isso inclui robótica, veículos autônomos, aviação e espaço, drones, automação industrial e sensores.
Salto impulsionado por grandes rodadas
A comparação histórica mostra a dimensão da transformação: os fundos de capital de risco investiram apenas US$ 41,9 bilhões em empresas de inteligência artificial física ao longo dos três anos de 2022 a 2024, menos do que o dinheiro que fluiu para o setor somente nos seis primeiros meses de 2026.
A rodada de US$ 16 bilhões da Waymo, anunciada em fevereiro, foi o principal fator desse salto. Alphabet, Dragoneer Investment Group, DST Global e Sequoia Capital participaram da liderança da rodada, que avaliou a Waymo, sediada em Mountain View, Califórnia, em US$ 126 bilhões. A rodada representa quase um terço do financiamento total do setor no período.
Outras grandes rodadas incluíram os US$ 5 bilhões captados pela empresa de tecnologia de defesa Anduril Industries em maio, com uma avaliação de US$ 61 bilhões, o dobro da avaliação de US$ 30,5 bilhões de menos de um ano antes. Em março, a Shield AI, sediada em San Diego, concluiu uma rodada Series G de US$ 2 bilhões, liderada conjuntamente por Advent International e JP Morgan Chase, elevando o valor da empresa para US$ 12,7 bilhões.
No mesmo mês, a Saronic, empresa de tecnologia de defesa sediada em Austin que desenvolve embarcações navais autônomas, captou US$ 1,75 bilhão em uma rodada Series D liderada pela Kleiner Perkins. A rodada elevou o financiamento total da empresa para cerca de US$ 2,6 bilhões e seu valor para US$ 9,25 bilhões, mais que o dobro do nível alcançado na rodada Series C de 2025.
Os financiamentos vêm acompanhados de grandes saídas
O movimento de capital não se limitou às rodadas de investimento. O setor registrou várias ofertas públicas iniciais e aquisições em 2026, com a atividade mais concentrada nos segmentos espacial, de defesa e de drones do que no de robótica.
A SpaceX foi a maior exceção, tendo captado US$ 75 bilhões em sua oferta pública inicial em junho, com uma avaliação de US$ 1,77 trilhão. A empresa de inteligência espacial HawkEye 360, sediada em Herndon, no estado da Virginia, também captou US$ 416 milhões em sua abertura de capital, enquanto a empresa de drones autônomos Aevex, sediada em Arlington, na Virginia, captou US$ 320 milhões.
Em operações de aquisição, a Mobileye comprou a startup israelense Mentee Robotics, especializada em robôs humanoides, por cerca de US$ 900 milhões. A Mobileye vinculou explicitamente a transação à sua estratégia de inteligência artificial física.
Por que essa transformação é importante para os investidores?
Ryan Ziegler, sócio-geral da Edison Partners, considera que a inteligência artificial física vai além de robôs, robôs humanoides, defesa e modelos fundamentais. Segundo sua visão, o campo combina software, hardware, sensores, Internet das Coisas e serviços para aplicações que abrangem manufatura, cadeias de suprimentos, serviços públicos, agricultura, transporte, governo, inteligência espacial e inteligência física.
Ziegler observa que a capacidade da inteligência artificial de processar rapidamente e em grande escala os dados gerados por esses sistemas está aumentando, ao mesmo tempo que o custo do hardware diminui e seu acesso melhora. Ele citou a presença de scanners LiDAR em telefones celulares, considerando que isso amplia a capacidade de mapear objetos e espaços.
Para a Edison Partners, as oportunidades se destacam especialmente em setores de alto valor que tradicionalmente dependiam de processos analógicos. O fundo busca aplicações cujo retorno possa ser medido por meio de manutenção preditiva, gestão de riscos, segurança de ativos, segurança e operações autônomas. O fundo também considera que algumas dessas empresas podem se assemelhar a empresas de software especializadas por setor, com implementações plurianuais e receitas significativas. Além disso, a combinação de software, sensores e hardware pode produzir conjuntos de dados proprietários cujo valor aumenta com o tempo.
Da experimentação à operação comercial
Joe Fath, sócio e responsável pela área de crescimento da Eclipse Capital, afirmou que os setores físicos continuam intensivos em capital, mas as tecnologias de apoio à inteligência artificial estão mudando a eficiência com que as empresas são construídas e ampliadas. Ele atribui isso à redução das barreiras técnicas, ao fluxo de profissionais experientes e ao aumento da demanda do mercado.
As condições econômicas para construir essas empresas também melhoraram nos últimos dois anos, segundo as opiniões de investidores apresentadas no artigo. Os recursos de computação e os modelos fundamentais tornaram-se mais amplamente disponíveis, os modelos reutilizáveis e as simulações baseadas em física melhoraram, mais dados de treinamento ficaram disponíveis e os custos de sensores e hardware diminuíram. Ao mesmo tempo, algumas empresas estão adotando modelos de receita que combinam a venda de hardware com receitas recorrentes ou preços baseados no uso e nos resultados.
Na prática, isso significa que o hardware pode funcionar como um canal de distribuição de software e dados, em vez de ser apenas um produto independente. Fath afirma que esses fatores estão direcionando o financiamento para energia, robótica, autonomia, chips, computação e infraestrutura de data centers, com maior foco em empresas capazes de alcançar as etapas de produção, conquistar clientes e expandir com eficiência.
A Eclipse Capital define a inteligência artificial física como «inteligência incorporada em sistemas que percebem o mundo real, raciocinam nele e agem dentro dele», evitando geralmente investir em fornecedores independentes de grandes modelos de linguagem. Fath considera que o valor pode ser distribuído pelas camadas do setor, mas que as melhores vantagens competitivas podem caber às empresas que integram várias camadas de infraestrutura e aplicação.
A conclusão apresentada pelos investidores não é que as capacidades técnicas, por si só, sejam suficientes, mas que os clientes se importam com eficiência operacional, confiabilidade e receita. Portanto, o teste prático para as empresas recém-financiadas será sua capacidade de transformar a inteligência artificial em sistemas comercialmente confiáveis e, em seguida, usar os dados e a infraestrutura resultantes para expandir para produtos adicionais.