As distâncias geográficas já não oferecem aos Estados Unidos a proteção de que o país desfrutou durante a maior parte de sua história. Mísseis balísticos intercontinentais, drones de longo alcance e armas hipersônicas são capazes de ultrapassar as barreiras naturais que antes tornavam extremamente difícil alcançar o território americano. Segundo a Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, a Coreia do Norte desenvolveu mísseis balísticos intercontinentais capazes de alcançar os Estados Unidos continentais, enquanto China e Rússia possuem juntas cerca de 900 mísseis dessa categoria.
Nesse contexto, o presidente Donald Trump emitiu, em 2025, uma ordem executiva que convoca ao desenvolvimento de um sistema abrangente de defesa antimísseis inspirado no Domo de Ferro israelense, denominado Golden Dome for America. Supõe-se que o sistema utilize satélites e sensores avançados para detectar, dissuadir e destruir mísseis balísticos e hipersônicos dirigidos aos Estados Unidos.
Mas o maior desafio talvez não seja inventar as tecnologias necessárias, e sim proporcionar a capacidade industrial necessária para construir o sistema e operá-lo em larga escala e em pouco tempo.
Um sistema integrado, não uma única arma
O Golden Dome não representa uma solução isolada, mas um “sistema de sistemas” que inclui várias camadas. Essas camadas abrangem constelações de plataformas espaciais capazes de rastrear mísseis e distinguir entre alvos no momento do lançamento; mísseis interceptores posicionados no espaço, no mar e em terra; e sistemas de energia dirigida, como lasers de alta potência, para interceptar mísseis durante a fase de propulsão, além da integração de inteligência artificial para acelerar a conexão entre sensores e meios de engajamento.
O general Mike Guetlein, diretor do Golden Dome for America, afirmou durante um evento em abril que o projeto representa uma resposta decisiva a uma nova era de ameaças e tem como objetivo construir um escudo multicamadas, integrado e automatizado. No entanto, concretizar essa visão exige grandes quantidades de equipamentos, materiais e componentes, e não apenas um modelo tecnológico bem-sucedido.
O que falta à base industrial americana?
Segundo Matt Magana, chefe do setor espacial, de defesa e segurança nacional da Voyager Technologies, os Estados Unidos já sabem fabricar a maioria dos elementos de que o sistema necessita. No entanto, suas capacidades de fabricação diminuíram como consequência de décadas de consolidação e transferência da produção para o exterior, o que enfraqueceu sua capacidade de fabricar no volume, na velocidade e ao custo necessários.
As lacunas aparecem em produtos essenciais, como motores de foguetes sólidos, componentes eletrônicos e produtos químicos utilizados na propulsão. Magana considera que o problema fundamental não é a ausência de inovação, mas a falta de infraestrutura que permita fabricar equipamentos importantes quando necessário e nas quantidades exigidas.
Essa questão ganha ainda mais importância no setor espacial, porque o projeto do Golden Dome depende em grande medida de ativos em órbita. A visão inclui satélites autônomos e apoiados por inteligência artificial, capazes de realizar manobras precisas, observação de baixa assinatura e processamento seguro de dados em órbita.
De grandes satélites a constelações numerosas
A proposta apresentada no artigo aponta para uma mudança na forma de construir capacidades espaciais: em vez de depender de um número limitado de grandes satélites, a missão caminha para o lançamento de quantidades maiores de pequenos satélites. Essa abordagem permite distribuir as funções entre mais ativos, mas, em contrapartida, exige ampliar os volumes de produção e investir em instalações e cadeias de abastecimento capazes de crescer à medida que a missão se expande.
É nesse ponto que reduzir o custo das soluções espaciais se torna parte dos requisitos operacionais, e não um objetivo comercial separado. Grandes constelações precisam de produção recorrente, componentes disponíveis e cadeias de fornecimento que não sofram interrupções quando a demanda aumentar.
Parcerias do “novo principal contratante”
A proposta sugere um conjunto de medidas para apoiar uma cadeia de abastecimento de defesa resiliente e soberana, entre elas contratos de longo prazo, financiamento plurianual e ciclos de aquisição previsíveis. Esses mecanismos dão aos fornecedores maior confiança para investir em novas instalações, desenvolver a força de trabalho e automatizar a produção.
Mas a reconstrução da base industrial, segundo Magana, não pode ser realizada pelo governo sozinho. O necessário é um ecossistema de cooperação que reúna grandes empresas tradicionais de defesa, empresas espaciais comerciais, startups de tecnologia e universidades, em parcerias que gerem benefícios mútuos.
A proposta cita a estação comercial Starlab, desenvolvida conjuntamente pela Voyager Technologies, Airbus, Mitsubishi, MDA Space e Northrop Grumman, entre outras entidades. Esse modelo oferece um exemplo de união das capacidades de várias empresas para fornecer uma capacidade espacial aos Estados Unidos, à NASA e aos aliados internacionais, em prazo e custo melhores em comparação com um projeto conduzido por uma única entidade.
A importância desse modelo está no fato de que o Golden Dome exige conhecimentos especializados, produtos e infraestruturas que uma única empresa não consegue fornecer sozinha. Por isso, seu sucesso pode estar ligado à criação de parcerias de “novo principal contratante” que unam capital e capacidades industriais e tecnológicas em torno de uma missão comum, em vez de se limitar a financiar um sistema de defesa sem tratar da base de fabricação que construirá esse sistema.