O ano de 2026 pode parecer muito forte para o mercado de ofertas públicas de empresas de tecnologia americanas apoiadas por capital de risco, depois que essas empresas levantaram cerca de US$ 90 bilhões em ofertas domésticas, segundo dados da Crunchbase. Esse valor representa o segundo maior total anual registrado até 16 de setembro, com vários meses ainda restantes até o fim do ano.
Mas o total de financiamento esconde uma concentração extraordinária. A SpaceX sozinha respondeu por 83% do montante, enquanto a empresa de infraestrutura de inteligência artificial Cerebras Systems levantou cerca de 6%. Assim, as demais empresas ficaram, na prática, com apenas uma parcela limitada dos recursos, embora o número de empresas que entraram no mercado tenha sido maior.
Muito dinheiro para praticamente duas empresas
Além da SpaceX e da Cerebras Systems, 21 outras empresas de tecnologia apoiadas por capital de risco abriram seu capital na Nasdaq ou na Bolsa de Nova York por meio de ofertas tradicionais ou de fusões com empresas de aquisição de propósito específico, e esse grupo levantou, em conjunto, menos de US$ 10 bilhões. A estatística da Crunchbase inclui ofertas que levantaram US$ 40 milhões ou mais e não inclui empresas de biotecnologia nem empresas adquiridas por firmas de private equity.
Esses números mostram que a força do mercado não pode ser medida apenas pelo volume de dinheiro. O total quase recorde resulta principalmente de um número muito pequeno de transações gigantescas, enquanto a média de oportunidades disponíveis para as demais empresas permaneceu mais modesta. Uma possível oferta pública da Anthropic provavelmente aumentaria a concentração do mercado, mas a fonte a descreve como uma possibilidade, não como um evento confirmado.
A energia supera o software
O setor de energia teve a presença mais forte entre as ofertas de tecnologia ao longo do ano, respondendo por cerca de um quarto das ofertas de startups. A maior delas foi a oferta pública da Fervo Energy, especializada em energia geotérmica. Empresas com foco em energia nuclear também entraram no mercado, entre elas a X-energy e a Hadron Energy, desenvolvedoras de pequenos reatores nucleares modulares, e a Standard Nuclear, que atua no segmento de combustível nuclear avançado.
As ofertas de destaque também incluíram a empresa de computação quântica Quantinuum e a plataforma de aluguel de equipamentos EquipmentShare. Nos setores de defesa e espaço, surgiram a empresa de inteligência de satélites HawkEye 360 e a desenvolvedora de veículos espaciais York Space Systems. Já no setor de produtos de consumo, a plataforma de bicicletas e patinetes elétricos Lime entrou no mercado, mas com uma avaliação inferior ao seu pico anterior.
Por que as empresas de SaaS desapareceram?
A ausência mais evidente foi a do software corporativo, uma categoria que costumava ser um dos pilares das ofertas públicas de empresas apoiadas por capital de risco. A análise da Crunchbase relaciona esse recuo ao impacto da inteligência artificial no setor: os investidores estão direcionando capital para uma nova geração de plataformas concebidas em torno da inteligência artificial, incluindo ferramentas jurídicas e contábeis, além de outras aplicações de software corporativo.
Ao mesmo tempo, as startups de SaaS que antes eram avaliadas em bilhões de dólares estão tentando integrar capacidades de inteligência artificial a seus produtos. Como resultado, um grande número de empresas de SaaS atuais ou anteriormente avaliadas em US$ 1 bilhão optou por adiar a abertura de capital, considerando que as condições de mercado em 2026 não são favoráveis a esse passo.
O que isso significa para o mercado?
Os dados revelam um mercado que não distribui igualmente entre setores e empresas as oportunidades de saída. Energia, defesa e espaço se beneficiaram de uma presença clara, enquanto o software corporativo enfrentou um teste duplo: a necessidade de provar sua capacidade de acompanhar a inteligência artificial e, ao mesmo tempo, obter uma avaliação que permita uma oferta pública bem-sucedida.
A lista de empresas que apresentaram pedidos para futuras ofertas públicas também não indica uma mudança rápida nesse padrão. O debate sobre as próximas ofertas está concentrado em possíveis empresas gigantes, como a Anthropic e a OpenAI, e não em ofertas públicas de SaaS em grande escala. Portanto, a questão em aberto não é se o mercado de ofertas públicas levantou muito dinheiro, mas se consegue ampliar a base de empresas capazes de chegar ao mercado, em vez de depender de um pequeno número de transações gigantescas.