A startup General Intuition captou US$ 320 milhões em uma rodada de financiamento que avaliou a empresa em US$ 2,3 bilhões, apostando que os dados das ações dos jogadores dentro de videogames podem ajudar os modelos de inteligência artificial a desenvolver algo semelhante à intuição humana e, posteriormente, passar de ambientes virtuais para robôs e para o mundo real.
A rodada eleva o financiamento total anunciado da empresa para US$ 454 milhões, após uma rodada de US$ 134 milhões captada no lançamento da empresa, em outubro passado. A Khosla Ventures liderou a nova rodada, com a participação da General Catalyst, de Jeff Bezos, Eric Schmidt, Nico Rosberg e pesquisadores do Google DeepMind e do MIT.
Dos videogames aos robôs
A General Intuition foi fundada após se separar da Medal, que permite aos jogadores enviar e compartilhar clipes de videogames. As centenas de milhões de horas de clipes coletadas pela Medal forneceram o conjunto de dados inicial para treinar o modelo da empresa em raciocínio espaço-temporal, ou seja, na compreensão de como se mover pelo espaço e pelo tempo.
Mas a empresa considera que o elemento mais importante não é o vídeo em si, e sim as marcações das ações incorporadas a ele: registros que mostram quais botões os jogadores pressionaram e em que momento. O cofundador e CEO, Peem De Vit, afirma que os concorrentes frequentemente tentam inferir as ações apenas a partir do vídeo, algo que ele considera insuficiente.
Durante uma demonstração no escritório da empresa em Nova York, um agente de inteligência artificial apareceu jogando um jogo semelhante a Fortnite, enquanto o mesmo modelo operava um robô quadrúpede que se deslocava pelo local com base em uma única câmera. O analista de dados Josh Duplanty afirmou que o modelo precisou de apenas oito minutos de dados robóticos coletados na rua para ser ajustado ao mundo real. O robô demonstrou capacidade de exploração, mas ocasionalmente bateu nas pernas das cadeiras e em uma lixeira, refletindo os limites do desempenho atual.
O modelo do mundo como ambiente de treinamento
A General Intuition desenvolveu um modelo do mundo que gera um ambiente de simulação quadro a quadro, em vez de depender de um mecanismo de jogo tradicional. A empresa afirma que esse ambiente não é o produto final, mas a “sala de jogos” interna que utiliza para treinar o modelo agente. O modelo busca compreender a relação entre o próprio agente, o ambiente e a causalidade, aproveitando dados de movimento e de reações humanas.
Apesar disso, a capacidade desse tipo de modelo de passar da simulação para o mundo real em grande escala continua sendo uma questão em aberto. A maioria das abordagens concorrentes precisa de enormes quantidades de dados do mundo real, coletados lentamente e a um custo elevado, enquanto a General Intuition aposta que os videogames podem oferecer um atalho escalável.
Financiamento, expansão e possíveis usos
A maior parte do financiamento será destinada ao aumento da capacidade computacional, em um acordo com a CoreWeave, e ao foco no pré-treinamento da próxima versão do modelo. A empresa também reservou parte dos recursos para disponibilizar sua interface de programação de aplicações em uma escala mais ampla até o fim do verão.
A empresa atualmente tem um número limitado de clientes nos setores de jogos, simulação e robótica. Entre os usos mencionados estão testar um robô dentro de uma versão digital do chão de fábrica, operar um robô humanoide dentro de um estúdio de jogos ou enviar um robô quadrúpede para explorar ambientes perigosos. A empresa também testou o modelo com drones e outros dispositivos, além de jogos de direção, e afirma que ele funciona com qualquer dispositivo que possa ser controlado por meio de um controle de videogame ou de teclado e mouse.
A empresa também lançou a plataforma Nerve, um mercado de trabalho que permite aos jogadores ganhar dinheiro usando seus equipamentos atuais, começando pela rotulagem de dados e chegando à operação remota de robôs e a outras tarefas. De Vit afirma que a empresa não quer construir produtos finais, como carros autônomos, mas fornecer um modelo básico que facilite a criação desses produtos, coletando novos dados dos clientes para alimentar um ciclo contínuo de desenvolvimento.
A General Intuition também estabelece limites para o uso de sua tecnologia. De Vit afirma que seus agentes não serão usados para ferir seres humanos, embora aceite o uso dos modelos em tarefas de busca e resgate. O investidor Vinod Khosla considera que os dados das ações e das reações humanas nos jogos podem ser a chave para o surgimento da “intuição” em modelos do mundo, mas o sucesso da transferência dessas capacidades para o mundo real em grande escala ainda não foi comprovado.