Os planos de expansão de 20 dos maiores aeroportos europeus enfrentam novas críticas após uma análise realizada pela organização Transport & Environment, que concluiu que o aumento planejado do número de voos e passageiros fará com que cada um dos aeroportos abrangidos exceda a sua parcela justa do orçamento de carbono associada a uma trajetória de aquecimento de 1,7 grau Celsius. A análise incluiu aeroportos de dez países europeus, entre eles aeroportos de Londres, Paris, Madri, Lisboa, Dublin, Frankfurt e Bruxelas.
Segundo o estudo, os planos atuais de crescimento levarão cada aeroporto a exceder o seu orçamento de carbono entre duas e três vezes. A organização também afirma que o setor europeu da aviação consumirá o seu orçamento remanescente para uma trajetória de 1,5 grau Celsius durante 2026, enquanto o seu orçamento para uma trajetória de 1,7 grau Celsius se esgotará até 2033.
O crescimento anula os ganhos de eficiência
Os argumentos das companhias aéreas e dos aeroportos a favor da expansão baseiam-se na ideia de que o uso de combustível sustentável para aviação, juntamente com o desenvolvimento da eficiência das aeronaves e dos motores, pode permitir o aumento do tráfego aéreo sem comprometer as metas climáticas europeias. Mas a análise da T&E conclui que o efeito do aumento do número de voos, da adição de pistas e da expansão dos terminais de passageiros anulará esses ganhos, mesmo considerando o aumento do uso de combustível sustentável para aviação e a melhoria da eficiência das aeronaves.
Denise Auclair, chefe da campanha Travel Smart da T&E, afirmou que o aumento do volume do tráfego aéreo por meio da adição de pistas e da expansão dos terminais eliminará os benefícios dos combustíveis mais limpos e dos motores mais eficientes, acrescentando que a organização não vê uma melhoria tecnológica real capaz de preencher a lacuna dentro do prazo necessário.
Exemplos de Portugal, Irlanda e Espanha
Os planos de expansão dos aeroportos de Lisboa e Porto, em Portugal, registram o maior excesso na análise, equivalente a 2,8 vezes o orçamento que lhes foi atribuído, seguidos pelos planos do aeroporto de Dublin, na Irlanda, com 2,6 vezes. Juntos, os dois aeroportos portugueses representam cerca de 80% das emissões da aviação no país. Por isso, o estudo afirma que manter as emissões dentro dos limites nacionais exigiria reduzi-las em 12% ao ano, em vez de aumentar a capacidade.
A T&E estima que o novo aeroporto planejado para Lisboa possa acrescentar 18 milhões de toneladas de dióxido de carbono, uma quantidade equivalente à metade de um ano de emissões de toda a economia portuguesa. No Reino Unido, o impacto adicional da terceira pista do aeroporto de Heathrow entre 2035 e 2050 equivaleria a um ano inteiro de emissões da economia da Croácia.
Quanto à Espanha, o estudo afirma que as emissões da aviação no país crescem a um ritmo mais rápido do que em qualquer outro grande país europeu, apesar dos planos de expansão de 12 aeroportos ao mesmo tempo. Os aeroportos de Madri, Barcelona, Palma e Málaga representam 66% das emissões dos voos que partem da Espanha durante 2025, enquanto a sua expansão poderia acrescentar 35 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Espera-se que a expansão de Madri, sozinha, acrescente 23 milhões de toneladas ao longo de 25 anos, superando o total das emissões da aviação espanhola em 2025.
O que muda na prática?
A importância da análise baseia-se no fato de que o orçamento nacional de carbono é um recurso compartilhado entre vários setores. Se os aeroportos consumirem uma parcela maior do que a permitida, a indústria, a agricultura ou o aquecimento terão de alcançar reduções adicionais para compensar isso, segundo a interpretação da T&E. A organização também alerta para riscos jurídicos crescentes para os governos que aprovarem expansões potencialmente incompatíveis com os seus compromissos climáticos.
A organização não propõe criar estruturas regulatórias inteiramente novas; aponta modelos no Reino Unido e na França para definir um orçamento nacional para a aviação ou uma trajetória de descarbonização que inclua voos internacionais, além de um modelo neerlandês que estabelece limites obrigatórios de emissões no nível dos aeroportos.
- Rejeitar expansões aeroportuárias quando elas excederem a sua parcela justa dos orçamentos de carbono e estabelecer um orçamento climático para cada aeroporto em conformidade com o Acordo de Paris.
- Eliminar as isenções fiscais da aviação, incluindo a aplicação de um imposto adequado sobre o combustível de aeronaves, a aplicação do imposto sobre o valor agregado às passagens e a inclusão integral dos voos internacionais no sistema europeu de comércio de emissões.
- Alinhar o número de slots de decolagem e pouso aos limites climáticos e reduzir os voos mais poluentes e de menor valor social.
- Direcionar o financiamento público, incluindo o financiamento do Banco Europeu de Investimento e os auxílios estatais, para alternativas de transporte mais limpas, em vez de aumentar a capacidade dos aeroportos.
A leitura editorial da certi.news
A fonte não prova que todos os projetos de expansão serão cancelados nem que as estimativas de emissões contam com consenso independente; ela apresenta resultados e uma análise produzidos pela T&E. Mas o que muda efetivamente no debate é o critério de avaliação: segundo o estudo, a eficiência das aeronaves ou o combustível sustentável, isoladamente, já não são suficientes se a capacidade e o tráfego aéreo continuarem crescendo. Os detalhes completos da metodologia, incluindo as hipóteses relativas às taxas de uso de combustível sustentável e ao cálculo da parcela justa de cada aeroporto, ainda precisam ser examinados no estudo original antes que os resultados sejam transformados em decisões regulatórias finais.