Dados de gastos empresariais compilados pela plataforma Ramp indicam que a Anthropic superou a OpenAI pela primeira vez em participação nos gastos comerciais com serviços de inteligência artificial durante maio, em um momento em que a empresa atravessava uma série de grandes acontecimentos e pressões políticas. Segundo os dados, a participação da Anthropic nas assinaturas de inteligência artificial pagas por empresas aumentou 2,5 pontos percentuais durante o mês, chegando a 41%, contra 39,5% da OpenAI, cuja participação permaneceu praticamente estável.
Esses números surgem pouco depois de a Anthropic ter levantado cerca de 65 bilhões de dólares a uma avaliação de 965 bilhões de dólares no fim de maio, superando a OpenAI, segundo a fonte, e de ter apresentado documentos confidenciais em preparação para uma oferta pública inicial em junho, em meio a relatos de que registrou seu primeiro trimestre lucrativo. No entanto, esses acontecimentos também coincidiram com uma nova escalada em sua disputa com o governo do presidente americano Donald Trump.
A crise dos modelos Mythos e Fable 5
Na sexta-feira anterior à publicação do relatório, o governo Trump enviou uma mensagem à Anthropic exigindo que impedisse não americanos, incluindo funcionários da empresa, de acessar seus modelos avançados. O pedido abrangia o modelo Mythos 5, que estava disponível de forma limitada, e a versão mais restrita que a empresa havia lançado ao público três dias antes sob o nome Fable 5.
Na prática, isso levou à retirada do mais recente modelo poderoso da Anthropic do mercado. A Casa Branca baseou-se em uma diretriz incomum relacionada aos controles de exportação, mas o motivo exato por trás da decisão permaneceu pouco claro no material. Uma das explicações aventadas era que hackers haviam conseguido contornar facilmente os mecanismos de proteção do Fable 5, projetados para impedir o acesso aos recursos do Mythos.
A Anthropic havia apresentado o Mythos como altamente poderoso na detecção de vulnerabilidades em códigos de programação, além de promovê-lo como um modelo perigoso e restringir sua disponibilidade pública. Segundo a fonte, o Fable 5 permaneceu no mercado por apenas alguns dias, enquanto o Mythos estava disponível para usuários limitados desde abril.
A disputa política não interrompeu a adoção pelas empresas
A disputa entre a Anthropic e o governo americano inclui a recusa da empresa em permitir o uso de seus modelos para a vigilância em massa de americanos ou em armas totalmente autônomas. Em março, o governo Trump declarou que a empresa era um “risco para a cadeia de suprimentos”. No entanto, os dados da Ramp não indicam uma queda nas vendas da Anthropic para empresas após essa classificação; pelo contrário, mostram crescimento em sua adoção comercial.
Ara Kharazian, economista-chefe da Ramp e responsável por reunir os dados de gastos com inteligência artificial, afirmou que a recente disputa pode beneficiar a empresa em vez de prejudicá-la. Segundo declaração atribuída a ele pela fonte, o melhor mês da Anthropic em termos de adoção empresarial foi aquele em que o Departamento de Defesa classificou a empresa como um risco para a cadeia de suprimentos, acrescentando que chamar o modelo de perigoso demais para ser usado pode conferir-lhe certa “aura”.
Essa interpretação representa a opinião de Kharazian e, por si só, não prova que o conflito político tenha causado o aumento da demanda. Além disso, os dados da Ramp não têm detalhamento suficiente para determinar a perda financeira que poderia resultar da retirada do Mythos e do Fable 5 do mercado.
Opus e Claude Code lideram os gastos
Os dados da Ramp, baseados em mais de 70 mil empresas que utilizam sua plataforma, indicam que os clientes usam intensamente os modelos Opus da Anthropic e que o uso empresarial dos serviços da companhia está se expandindo. A maior parte dos gastos das empresas não está relacionada apenas às assinaturas; a parcela principal destina-se a chamadas de API, que abrangem o consumo de tokens em tarefas como programação.
O Claude Code tem forte reputação como uma ferramenta avançada para programação com inteligência artificial. A Ramp não consegue identificar o modelo usado em cada transação, mas consegue observá-lo em cerca de um terço das transações. Nesses casos, as empresas gastam principalmente com diferentes versões do Claude Opus, especialmente as versões mais recentes. O Opus foi o modelo que precedeu o Mythos e continua disponível abertamente.
No fim de maio, a Anthropic lançou uma nova versão do Opus chamada Opus 4.8. Esse ponto é importante para interpretar os dados de gastos, porque a popularidade da Anthropic entre as empresas não depende necessariamente do Mythos retirado ou do Fable 5, interrompido após um curto período, mas baseia-se em grande medida em modelos já disponíveis e em produtos como o Claude Code.
Possível impacto sobre a oferta pública
Os números mostram que os modelos atualmente disponíveis da Anthropic se tornaram mais populares entre as empresas, mas não permitem prever completamente os resultados do novo conflito com a Casa Branca. Não está claro se a retirada do Mythos e do Fable 5 afetará a capacidade da empresa de realizar a oferta pública inicial para a qual vinha se preparando.
Investidores nos mercados públicos podem ser mais cautelosos em relação a empresas envolvidas em disputas com o governo, mas a fonte não apresenta evidências sobre como isso se refletiria especificamente na Anthropic. Por outro lado, a continuidade do crescimento da adoção empresarial oferece à companhia um indicador comercial positivo, mesmo com as consequências do conflito político e regulatório ainda em aberto.