Os postos de combustível na Europa estão passando por uma transformação que vai além da substituição das bombas de gasolina e diesel por carregadores de veículos elétricos; eles estão sendo redesenhados para se tornar centros de mobilidade, varejo e serviços, impulsionados pelo endurecimento das regulamentações da União Europeia, pelo aumento das vendas de veículos elétricos e pela mudança nos hábitos dos consumidores. Uma análise publicada pela CleanTechnica considera que essa transformação está reformulando a infraestrutura física e a economia operacional dos postos de combustível em todo o continente.
Nos mercados ocidentais, a modernização das antigas redes de varejo depende da compra de equipamentos abertos e da integração de sistemas de software em larga escala. A BP Pulse comprou da Tesla equipamentos de carregamento no valor de 100 milhões de dólares e equipou seus locais com adaptadores especializados para dar suporte a veículos que utilizam o Padrão Nacional de Carregamento da América do Norte, além de veículos que utilizam o Sistema de Carregamento Combinado. A medida faz parte de um roteiro mais amplo que visa operar 100 mil carregadores em todo o mundo até 2030.
Em uma iniciativa paralela, a Ford integrou cerca de 15 mil supercarregadores da Tesla à sua rede BlueOval, elevando sua presença digital total no setor de carregamento para mais de 106 mil locais. Para administrar grandes redes de equipamentos, os operadores de frotas estão recorrendo a sistemas avançados, incluindo a integração do software de agendamento Omega, da BP Pulse, com a plataforma EV Connect, com o objetivo de organizar operações automatizadas de carregamento comercial.
A Noruega apresenta um modelo avançado
Os contornos da transformação são mais claros na Noruega, onde os veículos elétricos recarregáveis representam mais de 90% das vendas de carros de passageiros novos. Em Oslo, a rede de lojas Circle K removeu todas as bombas de gasolina e diesel de seu local na Alexander Kiellands Plass e as substituiu por carregadores de corrente contínua de alta potência.
Outros locais da Circle K, como Berger e Kongsbergsporten, situados em rodovias de tráfego intenso, estão desmontando gradualmente as ilhas externas de combustível e instalando distribuidores de carregamento modulares com potência de até 400 quilowatts. Em vez dos espaços anteriormente destinados a caminhões-tanque e às áreas de segurança associadas aos vapores, os locais começaram a reservar mais espaço para assentos, convivência ao ar livre e lojas de varejo premium.
A Noruega se beneficia de uma rede elétrica cuja produção provém em cerca de 98% da energia hidrelétrica local, o que torna mais direta a operação desses centros com eletricidade limpa. Por isso, o foco da engenharia dos operadores está no gerenciamento de cargas e no compartilhamento inteligente de energia, para equilibrar automaticamente a distribuição elétrica entre dezenas de veículos que podem estar carregando ao mesmo tempo.
Soluções de carregamento nos Países Baixos
Os Países Baixos enfrentam condições diferentes. Apesar da alta densidade de veículos elétricos no país, as redes elétricas municipais sofrem congestionamento intenso, e a ampliação das subestações pode levar anos. Para superar essa limitação, a Fastned, empresa especializada em carregamento rápido fundada nos Países Baixos, projetou centros de carregamento dedicados desde o início.
Após obter concessões competitivas em rodovias neerlandesas antes dominadas por empresas petrolíferas, a Fastned apresentou locais caracterizados por arcos de madeira e coberturas de vidro amarelas encimadas por painéis solares. A Fastned e outros operadores neerlandeses também integram sistemas estacionários de armazenamento em baterias; as baterias retiram eletricidade lentamente da rede durante períodos de baixa demanda e depois a liberam rapidamente quando vários veículos se conectam para carregar nos horários de pico.
A Fastned também depende de contratos de compra de energia de longo prazo diretamente vinculados a parques eólicos e instalações solares regionais, de modo que cada quilowatt-hora fornecido ao motorista corresponda a uma geração proveniente de fontes renováveis.
De postos de combustível a centros urbanos
Em cidades densamente povoadas, onde o terreno é limitado, as empresas petrolíferas estão testando conversões menores. Na região de Fulham, no sudoeste de Londres, a Shell transformou completamente um posto de combustível tradicional em um centro de carregamento de veículos elétricos. As bombas de combustível foram substituídas por pontos de carregamento ultrarrápido sob uma cobertura leve de madeira laminada colada, equipada com painéis solares integrados.
O centro opera com eletricidade renovável certificada, respaldada por garantias de origem de energia renovável, enquanto os painéis solares no telhado fornecem parte das necessidades operacionais diárias. Projetos semelhantes estão se espalhando por Paris, Bruxelas e Amsterdã, onde pequenos postos de combustível nos bairros estão se transformando em locais tranquilos de carregamento que podem ser usados durante toda a noite ou no intervalo do almoço por moradores que não têm garagens em casa.
A mudança na economia dos postos e nas regulamentações
O carregamento rápido afeta o modelo de negócios tanto quanto o design. O abastecimento é uma operação de baixa margem e rápida, e o motorista normalmente não permanece mais de três a cinco minutos. Já o carregamento rápido, mesmo com equipamentos de 300 quilowatts, exige 15 ou 30 minutos. Esse tempo adicional dá aos operadores a oportunidade de aumentar as receitas com lojas de varejo, cafés, alimentos frescos, áreas de descanso e serviços de internet sem fio de alta velocidade.
Segundo a análise, a principal fonte de lucro de um posto moderno de rodovia já não é a energia que entra no veículo, mas a comida, as bebidas e os serviços consumidos pelo motorista enquanto espera. Isso ocorre paralelamente ao Regulamento de Infraestrutura para Combustíveis Alternativos da União Europeia, que exige a criação de agrupamentos de carregamento rápido a cada 60 quilômetros ao longo da rede de transporte transeuropeia principal, além de opções de pagamento uniformes sem assinatura, apresentação transparente dos preços e acesso aberto aos serviços.
À medida que essa infraestrutura se expande pelas rodovias e pelos centros urbanos, a transformação chega às pequenas cidades e aos corredores rurais. De acordo com o artigo, postos antes associados a cheiros de combustível e graxa e ao ruído dos motores estão se convertendo em espaços arquitetônicos mais tranquilos e limpos, mais próximos de cafés modernos do que de depósitos de combustível.